Eu sentia pavor. Um pavor que sou incapaz de descrever. Era acompanhado de culpa. Talvez isso tenha feito a sensação muito pior. A culpa nos aumenta o medo das consequências de nossos atos, porque criamos uma ideia do que merecemos, porém esperamos sempre que a punição seja além. Além é assustador.
O cadáver avançava em minha direção, e eu estava deitado. Senti seu corpo gelado e rígido tombar sobre minhas pernas, de costas.
Eu bem desejei que o pavor ainda maior daquele peso frio prendendo minhas pernas tivesse durado apenas a fração de segundo que levei para acordar. Eu bem desejei.
Com o sobressalto percebi que minhas pernas realmente estavam presas por um peso gelado. Este peso estremecia violentamente. Meu sangue enregelou-se. Meu coração deve ter parado por um segundo. Aquele segundo em que as possibilidades passaram por minha mente. Ou possibilidade nenhuma passou. A iminência do desespero se instalou. Levantei-me e acendi a luz. O desespero tomou conta.
- Pai!- gritei. Um aperto no peito. - Pai, acorda! Pai! - Chacoalhei-o. Suor frio. O cômodo exalava um hálito de morte. - PAI! - Senti meu palato vibrar com o grito.
Corri para o quarto ao lado. Porta trancada.
- Mãe! Mãe!
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